Archive for the ‘samantha abreu’ Category

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novembro 3, 2012

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No Espaço do Não- Limite

Ele me chamou para o jogo e eu não tinha a rainha. Ligou o som e se virou cantarolando pra mim: ‘Give me one reason to stay here and I’ll turn right back around’. Mal sabia que eu já estava outorgada e não via outro motivo, além disso já ser um motivo, para convencê-lo a ficar. Eu nada tinha a oferecer a não ser umas curvas arredondadas e escorregadias acompanhadas de algumas frases feitas. Apenas uma garota clichê com sorrisos prontos e músicas pop. Tudo que eu precisava naquele momento era que ele me desse uma experiência através dos riscos nas paredes e explosões não terroristas. Sem nomes, meu amor, detesto nomes, disse o Marlon Brando. Era dele o tabuleiro, mas não me negava a brincadeira e me cantava com ‘because I don’t want to leave you lonely’. Era esse o ponto. Quando levantei, ele já me tinha pelas mãos na cintura. O embalo era tão sísmico que me abalou em tremores não mensuráveis. De olhos fechados, eu não respondia mais por movimentos, atos ou roupas no chão. Sentia o balanço e o preenchimento de todo meu leave me lonely. A cabeça pendendo sobre nós no centro-limite em que um corpo ainda não era outro, embora já fôssemos apenas um no universo, não no coletivo e infinito, que também é mundo, mas naquele nosso, bem mais mundo que todos aos quais poderíamos pertencer. Perdemos o tempo do tempo. Enrolamos-nos no chão até que nosso mapa mundi fosse do meu ao dele em apenas um oceano de suor e vulcões-poros em plena erupção. Estava ali, no tapete, he’s reason to stay. Você consegue ver – ele disse – que onde me começo te termino e que não há mais espaço para ser você mesma em você? Não me saiu um sussurro sequer. Dizem que esse é o silêncio-sinal. Foi ali, bem ali, que percebi.
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Samantha Abreu
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julho 15, 2010

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Quando pari teus versos,
rimamos.
E a sintonia foi tamanha,
que não nos separamos mais em sílabas:

T U E U
E U T U
T
E U
E U

O ritmo certo,
entonação.
E a devastação
de tudo o que eu chamava
de métrica.

Sou tua obra, poeta,
tua ode, teu soneto.
Sou as letras com as quais brincas
nessa página branca.

Quando pari esses teus versos,
a sintonia foi tamanha
que não nos separamos mais.

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samantha abreu
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junho 23, 2010

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“Basta um (im) pulso e tudo volta a ser vento…”

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samantha abreu
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novembro 6, 2009

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Uma carne exposta para que ele acaricie. É assim que sinto quando, meticulosamente, ele me despe de todas as peles e me toma por todas as raízes e nervos.
Vamos construir um palácio, ele diz, vamos mudar pra Veneza, vamos rir pelas ruas, dormir embriagados. Vou te arrancar todas as dermes, todas as noites, vou te despir das máscaras, vou te deixar como és, ele diz. Faremos baderna em igrejas, gritaremos palavrões da janela, levaremos os cachorros da rua pro nosso apartamento. Vou lhe fazer um filho e uma tela expressionista.
Eu ainda não entendi se é loucura ou arrebatamento. Meus pés no chinelo suam, não consigo correr sem cair e ele me alcança, me retoma aos beijos. Ele me mantém no laço ardido do amor e ódio, do bem e do mal. Esse amor é filho da guerra, eu digo, somos inimigos. Ele ri, toma calmamente outro gole, me pega pelo braço e me arrasta até o quarto mais próximo. Ali entendo como sou sempre o país mais fraco. Terrorista, eu grito. Ele me lambe todos os vãos, me morde as sobras, me engole. Nossa febre é vida, meu amor, ele sussurra me arrancando a orelha.
Fadigamos alguns minutos, abraçados. Levantamos e saímos rindo pela rua, chutando pedrinhas e falando obscenidades para que as velhotas de portão nos escutem.

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 samantha abreu